Rojava e Síria em guerra – uma avaliação política

Desde o início do ano, ocorreu uma escalada sem precedentes dos acontecimentos em Rojava e na Síria. Considerando a rápida dinâmica dos eventos em curso, há uma necessidade urgente de uma análise minuciosa da situação atual e dos objetivos e interesses dos atores envolvidos nessa complexa rede de relações políticas.

Essa não é a primeira vez que a Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria (DAANES) é submetida a tamanha pressão. Desde o início da guerra na Síria em 2011, a revolução de Rojava foi um alvo recorrente de uma gama diversificada de atores, incluindo o chamado Estado Islâmico (IS/ISIS/Daesh), o regime de Assad e – de forma mais persistente – o Estado Turco.

A última escalada começou no dia 6 de janeiro de 2026, quando as tropas e milícias filiadas ao governo sírio de transição lançou ataques contra os bairros de Sheikh Maqsood, Ashrafiye e Beni Zeyd em Aleppo. Estes ataques logo se expandiram ao largo de uma grande parte de Rojava, efetivamente posicionando todo o norte da Síria sob ataque. Apesar do suposto cessar-fogo anunciado pelo regime Sírio no dia 18 de janeiro, a violência continuou de forma implacável e se espalhu para Haseke e no entorno de Kobane. Relatórios indicam que ocorreram massacres contra civis.

Como resultado destes ataques em curso, a existência de Rojava agora está em risco. Este conjunto de acontecimentos refletem uma mudança no equilíbrio de poder na região e sinaliza o início de uma nova fase política no Oriente Médio.

Para compreender as principais dinâmicas da atual situação, os antecedentes dos últimos acontecimentos na Síria e o seu impacto em Rojava, é necessário analisar e compreender as revoltas no Oriente Médio de forma mais detalhada. Uma compreensão com base histórica destes processos políticos é crucial para que as forças democráticas se posicionem diante das tentativas de apropriação pela modernidade capitalista e para desenvolver uma perspectiva independente e emancipatória.

Uma nova fase da Terceira Guerra Mundial

O enquadramento conceitual e teórico da “Terceira Guerra Mundial” criado por Abdullah Öcalan em sua obra “Manifesto por uma Civilização Democrática”, provê uma orientação central para uma avaliação adequada da atual conjuntura na Síria.

Este termo, que tem sido usado pelo Movimento de Libertação do Kurdistão por mais de duas décadas, descreve o processo glbal de realinhamento das forças hegemônicas e zonas de influência que começaram com o colapso da União Soviética. Os anos de 1989-90 marcaram o fim da ordem mundial bipolar, que dividia o mundo entre o bloco Soviético e o bloco capitalista, e conduziu a ruptura do equilíbrio de poder anterior, especialmente no Oriente Médio. Nesta fase caótica, o objetivo das forças da modernidade capitalista foi a completa integração da região à hegemonia capitalista.

Neste contexto, podemos identificar três grupos de atores centrais no Oriente Médio, cada um atuando com diferentes interesses e objetivos:

Primeiro, os atores internacionais, conduzidos pelos Estado Unidos (EUA), formam um bloco dominante. Desde o início da década de 1990, os Estados Unidos buscaram a reestruturação da região como parte do chamado “Projeto do Grande Oriente Médio” (GOM) com o intuito de dominar os recursos e rotas comerciais regionais. O GOM se desenvolveu em resposta ao vácuo de poder que seguiu o colapso do socialismo real e objetiva transformar o Oriente Médio em conformidade com as ideias neoliberais. As consequências sangrentas desta política nos últimos trinta anos em países como Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria ilustram os efeitos devastadores sobre as sociedades na região. A estratégia dos Estados Unidos está baseada primordialmente em três pilares: eliminar as ameaças potenciais para os Estados Unidos e o Ocidente, controlando os recursos e corredores energéticos, e garantir a segurança de israel e sua capacidade de projetar a guerra na região. Neste contexto, tanto o desmantelamento do projeto da meia-lua Xiita do Irã e a criação da chamada “OTAN Árabe” cumprem um papel central. Isso se manifesta, entre outras coisas, nos Acordos de Abraão, que visam unir estrategicamente os Estados Sunitas – em particular, a Árabia Saudita e os Estads do Golfo – com israel.

O segund grupo de atores consiste nos Estados-nação da região, que estão buscando resistir às tentativas do Projeto do Grande Oriente Médio em remodelar a região e impor suas políticas de dominação, desmontando a ordem do século XX baseada nos acordos Sykes-Picot. No entanto, insistem na ordem estatal estabelecida mais ou menos cem anos atrás pelo Acordo Sykes-Picot.

As forças sociais representam o terceiro ator. Hoje, o Movimento de Libertação do Kurdistão é seu maior representante que, com o desenvolvimento do modelo do Confederalismo Democrático e da nação democrática, está formulando uma alternativa à ordem do Estado-nação e ao Projeto do Grande Oriente Médio.

Do dia 7 de outubro de 2023 à querda do regime Baathista na Síria

Com o genocídio na Palestina a partir do dia 7 de outubro de 2023, o processo de remodelamento do Oriente Médio ganhou um impulso considerável. O status quo existente foi visto como um obstáculo à hegemonia Ocidental e, portanto, foi deliberadamente quebrado com o objetivo de estabelecer novas relações de poder. Neste contexto, a influência iraniana na Palestina (Hamas) e Líbano (Hezbollah) foi enfraquecida, enquanto as mudanças de poder na Síria quebraram outro pilar central da hegemonia regional do Irã. O Irã se defronta com duas alternativas: a mudança do regime atual ou submissão à ordem hegemônica existente.

Diante dessa reestruturação do Oriente Médio, israel está assumindo o papel de centro hegemônico. Uma nova arquitetura da segurança regional está sendo construída em torno de israel. Os Acordos de Abraão demarcam um processo de gradual integração dos Estados-nação Árabes neste sistema, com israel como ator central e representante da hegemonia ocidental. Ao mesmo tempo, o bloco Sunita, que foi abalado de forma significativa pela Primavera Árabe, está sendo reformado. Neste contexto, existem chamadas crescentes por um cerco estratégico ao Irã. Para além da dimensão das políticas de segurança, a transformação do Oriente Médio em consonância com a nova ordem mundial objetiva controlar as reservas energéticas e as novas rotas energéticas, assegurar o fluxo de capital sem impedimentos, dominar o Mediterrâneo Oriental, e estabelecer regimes políticos que limitem e contenham o escopo de ação da Rússia e China.

A queda do regime Baathista no dia 8 de dezembro de 2024, após 62 anos, representa uma continuação desta política e conduziu para uma nova etapa de incertezas na Síria. Quando o Hayat Tahrir al-Sham (HTS), que tem raízes no al-Qaeda, desenvolvido recentemente a partir de um pequeno emirado islâmico na região de Idlib e estava sob o patrocínio e supervisão do Estado turco, tomou o poder, ficou claro que a crise Síria não havia acabado. O HTS, que agora forma o governo de transição, marca o início de uma nova conjuntura de instabilidade.

O HTS na Síria como nova força proxy do Ocidente

Com a queda do regime de Assad e a tomada do poder pelo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), a rede de relações na Síria mudou qualitativamente. Um novo equilíbrio de poder emergiu, que precisa ser entendido para avaliar corretamente os acontecimentos em curso. A situação que se desenvolve neste momento deve ser analisada primordialmente através da perspectiva dos Estados Unidos e do bloco ocidental.

Desde o início da Guerra Civil Síria em 2011, o objetivo dos EUA e seus aliados era derrubar o regime de Assad e instalar um governo pró-Ocidente – um objetivo que foi efetivamente alcançado com o atual governo de transição. Isso colocou os EUA em oposição direta à Rússia e Irã, que foram pilares centrais no apoio ao regime de Assad durante a guerra. Até a queda de Assad, a política russa mirava na estabilização do sistema de Estado-nação sírio existente mantendo-o no poder.

Com a tomada do poder pelo HTS, esse equilíbrio de forças entrou em um novo momento. Com o HTS, uma força que foi construída com preparo significativo do Reino Unido, existe agora um governo em Damasco que é integrado aos EUA e ao projeto de reorganização da região pelo Ocidente. O HTS aceita as regras da modernidade capitalista, é economicamente integrado no campo ocidental, reconhece de fato a hegemonia israelense e permanece em silêncio diante da ocupação israelense de partes da região sul da Síria.

Para os Estados Unidos, esta mudança nas alianças não é nada novo. Quando os EUA se aliaram com os kurdos, eles estavam sob ataque do ISIS, Assad estava no poder e os EUA se opunham a Assad. Considerando o apoio que deram às YPG e depois ao SDF, ocorreu uma séria mudança nas relações com o SDF após a mudança de regime na Síria e os EUA começaram a apoiar o novo governo sírio. Previamente, os EUA tentaram controlar suas relações predominantemente tático-militares na Síria do leste do Eufrates, mas agora está tentando implementar sua estratégia política e diplomática através de Damasco.

Essa nova estratégia foi formalmente selada no encontro de Paris nos dias 5 e 6 de janeiro de 2026, quando a Síria e israel concordaram em um mecanismo de comunicação conjunta sob a supervisão dos EUA. Entretanto, este encontro não se limitou a isso. Ao mesmo tempo, uma aliança foi formada contra a DAANES. Não é coincidência que o Ministro de Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, também estava presente em Paris neste dia. Esta aliança contra Rojava, apoiada pelos EUA, França, Grã-Bretanha e Turquia, também é apoiada pela União Europeia. Isso foi claramente demonstrado durante a visita da Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen em Damasco, que prometeu apoio político para o novo regime, enquanto uma guerra de extermínio estava sendo travada contra territórios kurdos. Neste sentido, o ataque contra Rojava não é um evento isolado, mas faz parte de uma abordagem coordenada entre o regime de al-Sharaa e o Ocidente.

Para alcançar interesses mais concretos, as forças vitoriosas na Síria agora estão lutando entre si, e o projeto por uma Síria democrática não tem lugar neste ínterim. Israel deseja genuinamente que a Síria se mantenha fragmentada. A Turquia, enquanto isso, quer uma administração Síria leal para si e quer implementar o neo-Otomanismo ao redor do Oriente Médio e Mediterrâneo Oriental. Os Estados do Golfo e a Grã-Bretanha querem estabelecer uma esfera de influência no Mediterrâneo Oriental através do HTS. O mais influente de todos esses poderes, os EUA, querem estabelecer um equilíbrio entre esses países, que são todos seus aliados, e irá muito provavelmente assumir uma posição próxima dos argumentos de israel. O projeto da Turquia é, de fato, reviver um período similar ao regime de Assad com nomes diferentes; sobre este ponto, está antagonizando automaticamente com os povos da região. Isso significa que estão pressionando por um poder centralista do Estado-nação como fundamento da divisão e opressão étnica. Israel, por outro lado, está assumindo uma abordagem puramente tática para a região. Por ter assegurado todas as concessões de curto-prazo que queria da liderança do HTS após o acordo de Paris, o governo de israel parecer disposto a usar os grupos HTS como uma espada de Dâmocles para o resto da Síria por um longo período. Note-se que Israel está apenas observando os massacres do HTS após o acordo de Paris. A Turquia, por outro lado, provocará constantemente o HTS contra as SDF, tentando minimizar os ganhos dos curdos.

Pragmatismo dos EUA em relação aos Kurdos

A política pragmática dos Estados Unidos com os kurdos antes da queda de Assad se deu principalmente por conta da luta contra o Estado Islâmico (ISIS). Do ponto de vista dos EUA, essa aliança tática de 12 anos foi conduzida por três motivos chave: primeiro, a cooperação com a YPG ofereceu os meios mais efetivos para ganhar prestígio militar no combate ao ISIS. Em segundo lugar, os EUA buscaram manter a revolução sob controle, limitando sua orientação socialista ou Apoísta (termo utilizado pelos apoiadores da linha política de Öcalan) e tentando direcioná-la em um sentido nacionalista. Em terceiro lugar, os kurdos serviram para exercer pressão ao regime de Assad e ao bloco Rússia-Irã.

Com este novo equilíbrio de poder na Síria e o estabelecimento de um regime pró-Ocidente em Damasco, tais interesses táticos mudaram fundamentalmente. Os argumentos e restrições anteriores perderam seu significado. Contra este cenário, os EUA agora tentam colocar os kurdos sob uma massiva pressão política, militar e econômica com o intuito de forçá-los a uma integração “voluntária” ao Estado Sírio. Ao mesmo tempo, a Turquia está recebendo maior margem de manobra para limitar a influência dos kurdos e empurrá-los ainda mais em direção a Damasco.

Os EUA não escondem a sua posição. No dia 20 de janeiro de 2026, o enviado especial dos EUA para Síria, Tom Barrack, expressou abertamente sua aproximação tática às SDF em seu pronunciamente: “Hoje, a situação mudou consideravelmente. A Síria agora possui um reconhecido governo central que se uniu à Coalizão Global para Derrotar o ISIS (como o seu 90º membro no final de 2025), sinalizando uma guinada para o Ocidente e cooperação com os EUA no combate ao terrorismo. Isso altera a lógica da parceria entre os EUA e as SDF: o objetivo original das SDF como principal força anti-ISIS no terreno expirou em grande parte, uma vez que Damasco está agora disposta e posicionada para assumir as responsabilidades de segurança, incluindo o controle das instalações e campos de detenção do ISIS.2

Os EUA aproximaram o novo regime sírio liderado por al-Sharaa de israel (pela primeira vez na história dos dois países) e continuam tentando fortalecer esse regime e construir uma nova Síria por meio de al-Sharaa. Nesse contexto, a relação entre al-Sharaa e israel é de extrema importância para os EUA. Isso também incluiu al-Sharaa estabelecer uma relação com Israel na qual ele se submete à sua hegemonia na região, o que de fato ocorreu na reunião de Paris. Em uma segunda etapa, os EUA estão agora tentando de alguma forma “integrar” os Kurdos, com quem mantêm uma aliança militar há mais de dez anos, ao novo regime.

É aqui que surgiram as falhas e as dificuldades. As negociações estão em curso desde 10 de março de 2025, e o regime de Damasco tem se feito grande parte das vezes de surdos frente às exigências das SDF. Sempre que um acordo com as SDF parecia estar ao alcance, a Turquia intervinha diretamente. No dia 4 de janeiro, imediatamente antes do ataque a Aleppo, as negociações entre o SDF e a delegação de Damasco estavam inicialmente indo bem, de acordo com reportagens da imprensa, e parecia que um acordo seria assinado. Mas então o ministro das Relações Exteriores al-Sheibani, aliado da Turquia, entrou na sala de negociações e declarou o fim das negociações. Um dia depois, as negociações sobre um acordo de segurança com israel começaram em Paris e, em 6 de janeiro, um acordo foi alcançado. No mesmo dia, ocorreu o ataque em Aleppo. A Turquia esteve envolvida no ataque a Aleppo com toda a sua força e continua envolvida atualmente. Desde o planejamento até à implementação, a Turquia esteve envolvida militarmente, diplomaticamente, em termos de inteligência e tecnicamente. Trata-se de uma operação realizada em conjunto com o governo de Damasco e os grupos armados que atuam em nome da Turquia. Os ataques visavam essencialmente quebrar a força de vontade dos kurdos nas negociações entre as SDF e Damasco, minando suas exigências de reconhecimento, forçando a integração através do enfraquecimento de sua força militar e enfraquecendo a posição de negociação das SDF, a fim de alcançar a capitulação total.

No que diz respeito às relações entre os kurdos e os EUA, nos últimos anos surgiu uma certa divisão entre os atores internacionais e regionais ao longo do Eufrates ocidental e oriental. Até o atual ponto de viragem, os EUA tinham sinalizado aos kurdos que não iriam interferir nos assuntos a oeste do Eufrates. Com base nisto, os EUA não se opuseram às operações militares turcas em Afrin (2018), Manbij (2024) e Till Rifaat. No entanto, retiraram as suas tropas e permaneceram em silêncio quando o exército turco atacou e ocupou Till Abyad e Ras Al-Ayn em 2019, ambas situadas a leste do Eufrates.

Agora, mais uma vez, estamos testemunhando uma enorme ofensiva militar a leste do Eufrates: cidades como Tabqah, Raqqa e Ayn Issa estão agora sob o controle do regime sírio, enquanto Haseke e Kobane estão sitiadas. A divisão entre o oeste e o leste, anteriormente considerada uma “linha vermelha” imaginária, perdeu sua validade nesta nova fase. O silêncio dos EUA sobre estes desenvolvimentos equivale, na prática, a apoiar a reivindicação de Ahmed al-Sharaa de estabelecer a soberania do Estado sobre toda a Síria. A situação atual mostra que o intuito fundamental dos EUA já não é negociar a divisão entre uma região ocidental e uma região oriental do Eufrates, mas sim enfraquecer ao máximo as SDF.

EUA tentam unir Damasco, Turquia e Israel

Do ponto de vista dos EUA, a lógica subjacente na Síria é alinhar israel e a Turquia. De um lado está israel, o aliado mais próximo do Ocidente na região; do outro lado está a Turquia, membro da OTAN cuja relação com o Ocidente tem sido marcada por tensões, mas continua sendo estrategicamente indispensável. Washington procura incentivar a Turquia e israel a identificarem interesses de segurança comuns, coordenarem suas abordagens e apresentarem um quadro conjunto para a Síria. Em última análise, essa estratégia aponta para a formação de um alinhamento mais amplo entre Damasco, Turquia e Israel.

Estrategicamente, a Turquia e israel perseguem objetivos divergentes na Síria. A Turquia está determinada a impedir que os kurdos estabeleçam autonomia política, administrativa ou militar e tem demonstrado pouca disposição para chegar a um acordo sobre esta questão. Assim, Ancara favorece o surgimento de uma liderança síria forte e centralizada sob al-Sharaa, que consolidaria todas as alavancas do poder. Israel, por outro lado, apesar de ter imposto certas exigências a al-Sharaa, não confia nem no regime nem no bloco de poder que o rodeia. Do ponto de vista de israel, essa liderança poderia representar um desafio à sua segurança a médio e longo prazo. Portanto, não é do interesse de israel que a Síria se torne excessivamente poderosa ou expanda significativamente suas capacidades militares. Em vez disso, israel favorece uma estrutura política mais fragmentada, descentralizada e flexível — na qual kurdos, drusos, alevitas e outros grupos sociais estejam representados —, limitando assim a capacidade de Damasco de projetar poder e preservando o próprio espaço de influência de israel. A razão para isso não é o interesse pela democracia, mas sim o desejo de manter sua própria hegemonia e influência. Além disso, é essencial para Israel e as potências ocidentais poder usar o HTS contra o Irã e as milícias xiitas, como o Hezbollah no Líbano e as Forças de Mobilização Popular no Iraque. Apesar dessas diferenças fundamentais, os esforços para identificar um meio-termo comum entre a Turquia e israel continuam. Os Estados Unidos estão tentando ativamente levar Damasco, Ancara e Tel Aviv à mesa de negociações.

É importante ressaltar que todos os atores estatais mencionados fazem parte, em última instância, da modernidade capitalista. Embora tenham estratégias diferentes para expandir sua própria hegemonia, eles se unem no curto prazo para sufocar alternativas como as representadas por Rojava como um projeto de socialismo democrático.

Nesta equação, os kurdos estão agora sendo pressionados a se integrar no novo regime, sendo diminuídos, enfraquecidos e ideologicamente diluídos. Se isso será bem-sucedido é uma questão que dependerá agora da resistência de Rojava.

A essência ideológica dos ataques

Os ataques a Rojava não são apenas de natureza política e militar, mas também têm uma profunda dimensão ideológica. Com a pressão atual, os EUA estão tentando liberalizar as conquistas revolucionárias e fortalecer as forças nacionalistas. Por um lado, querem promover agendas nacionalistas; por outro, continuam a tentar dividir os kurdos em bons (KDP, etc.) e maus (PKK, etc.), a fim de enfraquecer a unidade dos kurdos. No cerne disso está um ataque à ideia de nação democrática – o núcleo da revolução. Os kurdos devem ser colocados contra os árabes e o projeto de coexistência deve ser minado. Assim, no início da guerra, os ataques foram direcionados especialmente contra regiões com população majoritariamente árabe, como Raqqa, Tabqa e Deir ez-Zor.

O objetivo é fazer uma divisão com base em linhas étnicas e, a partir daí, forçar a capitulação dos curdos ou esmagar sua vontade política pela força bruta, o que abriria caminho para a limpeza étnica, massacres e mudanças demográficas sistemáticas. Portanto, a situação atual visa não apenas destruir as conquistas da sociedade kurda na Síria, mas também alimentar as hostilidades entre os povos. Enfraquecer os kurdos para dominar o Oriente Médio é uma política de “dividir para reinar” que já dura 200 anos. É uma nova versão da política imperialista de “dividir para reinar” que manteve a hegemonia da modernidade capitalista no Oriente Médio nos últimos 200 anos.

Ao mesmo tempo, forças nacionalistas kurdas como a ENKS e o KDP estão sendo especificamente promovidas, como ficou evidente recentemente na reunião em Erbil, em 17 de janeiro de 2026. Durante anos, essas forças têm propagado um discurso que busca reduzir o autogoverno a uma agenda puramente étnico-cultural. O decreto emitido por al-Sharaa em 17 de janeiro, reconhecendo a língua kurda e fazendo novas concessões, também deve ser entendido neste contexto como uma manobra tática destinada a dar impulso a essa linha nacionalista. O decreto não tem força vinculativa constitucional, enquanto o próprio regime se baseia na negação, divisão e massacres de alevitas, drusos e kurdos. A continuação simultânea dos ataques militares pelo HTS deixa claro que o que se busca, em última instância, é a submissão completa a Damasco.

Neste momento, são evidentes duas estratégias diferentes em relação aos kurdos. Por um lado, o Estado turco e o regime sírio estão a seguir uma política de esmagamento das conquistas revolucionárias, que se estende a práticas genocidas. Por outro lado, a estratégia dos EUA visa menos a destruição física do que a liberalização e a despolitização da revolução. O apoio a este plano visa distorcer e canalizar o potencial revolucionário-democrático dos kurdos. A política de “dividir para reinar” é implementada principalmente através do apoio a elementos nacionalistas kurdos. Em particular, as forças revolucionárias, democráticas radicais e socialistas no Kurdistão devem ser neutralizadas desta forma. Um dos principais objetivos neste contexto é isolar o PKK e a linha da liberdade. O apoio internacional a este plano visa distorcer e canalizar o potencial revolucionário-democrático dos kurdos e encontra amplo apoio na arena diplomática internacional. Isso promove uma linha de Estado-nação que se limita a certos direitos e demandas kurdos e que se subordina ao projeto dos EUA e de israel para o Oriente Médio. Ao mesmo tempo, uma minoria kurda enfraquecida continua sendo um instrumento potencial para as forças da modernidade capitalista serem usadas novamente como alavanca em conflitos com Damasco.

Nesse contexto, não se pode falar em “traição” dos kurdos ou de Rojava pelos EUA ou pela União Europeia. A traição só pode existir quando há uma parceria estratégica ou um projeto político conjunto para o futuro. No máximo, pode-se dizer que aqueles atores que conscientemente vincularam seu futuro aos EUA e apostaram em uma aliança estratégica foram traídos.

No entanto, isso não se aplica a Rojava. Em nenhum momento houve um projeto ideológico ou político comum entre a Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria e os EUA. Desde o início, as relações foram puramente táticas, dependentes de uma constelação geopolítica específica e estritamente limitadas à luta conjunta contra o Estado Islâmico.

Os EUA, como potência imperialista e hegemônica do sistema capitalista mundial, perseguem o objetivo de explorar as conquistas da luta de uma sociedade pela liberdade em benefício de seus próprios interesses. Nesse contexto, os ataques atuais devem ser entendidos não apenas em termos políticos e militares, mas, acima de tudo, em termos de sua profundidade ideológica. As forças da modernidade capitalista coordenaram seus esforços para aumentar a pressão sobre os kurdos, contê-los e instrumentalizá-los e explorá-los de acordo com seus próprios planos estratégicos. Esses ataques mostraram mais uma vez que as forças da modernidade capitalista são capazes de pisotear todos os valores em busca de seus próprios interesses.

Em contrapartida, a linha estratégica do Movimento de Libertação do Kurdistão é clara: seus parceiros não são Estados imperialistas, mas forças democráticas globais, movimentos sociais e atores antissistêmicos que defendem a autodeterminação, a igualdade e uma ordem social alternativa.

Caracterizando as políticas do HTS

Nesse contexto, vale a pena examinar mais de perto o governo sírio. O caráter do governo de transição sírio controlado pelo HTS só pode ser compreendido no contexto de sua orientação ideológica e prática política. Desde o início, o líder do HTS, Ahmed al-Sharaa, tem seguido uma linha reacionária e monista. Ele tem ameaçado continuamente os kurdos, ignorado as iniciativas de reconciliação da Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria e, em vez disso, exigido sua completa submissão ao seu regime repressivo. Com o HTS, o Estado Islâmico faz parte do governo sírio, e a libertação de terroristas do ISIS pelas milícias do HTS, como em 19 de janeiro na cidade de al-Shaddadah e em Raqqa, demonstra claramente essa conexão. Por meio da identidade do HTS, as forças hegemônicas levaram o ISIS à condição de Estado.

Esta política visa destruir a Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria, que foi construída por kurdos, árabes, assírios e outros grupos populacionais com base no conceito de uma nação democrática. Ela será substituída por um sistema autoritário baseado em uma única nação e uma única fé. Esse pensamento representa um ataque direto à coexistência fraterna secular entre povos e comunidades religiosas no Oriente Médio. O objetivo é impedir a compreensão democrática de nacionalidade que poderia permitir a paz e a estabilidade na Síria e na região.

Os ataques do HTS não são, portanto, uma medida isolada de política de segurança, mas parte de uma conspiração abrangente contra o futuro da Síria. O HTS está atuando como um ator central em uma política que não visa a unidade nacional, mas a divisão e a fragmentação. Enquanto a Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria criou uma unidade kurdo-árabe, o HTS está deliberadamente tentando incitar a hostilidade entre kurdos e árabes. Nesse sentido, o HTS está travando uma guerra por procuração sob a influência de potências externas. Com tal estratégia, nem uma unidade democrática da Síria nem um futuro estável para o Estado são possíveis.

Integração” ou assimilação?

Desde o início das negociações sobre a integração das regiões autônomas do norte e leste da Síria na nova ordem síria, ficou claro que, para o HTS, integração significa, na verdade, assimilação. O último decreto de 17 de janeiro do presidente do governo de transição, Ahmed al-Sharaa, que superficialmente parece reconhecer os direitos kurdos, não representa uma ruptura com a política anterior. Trata-se, antes, de um exercício tático de poder dentro de uma mentalidade estritamente centrada no Estado. Isso não resolve a crise, mas sim a reorganiza e a torna controlável.

Em sua essência, o decreto reconhece elementos da identidade cultural, mas se recusa a reconhecer a subjetividade política coletiva e a capacidade de autogoverno da sociedade. Os mecanismos locais de tomada de decisão e as formas de auto-organização são excluídos da esfera política legítima. O reconhecimento tem, portanto, um efeito restritivo, e não libertador.

A questão central é o que e a quem esse reconhecimento diz respeito: está sendo reconhecida uma sociedade organizada e em luta – ou apenas um grupo social fragmentado, individualizado e controlável? Na realidade, o decreto visa minar o equilíbrio político e militar no norte da Síria, em particular as Forças Democráticas Sírias (SDF).

Essa estratégia não se baseia na destruição militar aberta, mas em meios mais sutis. O objetivo é separar a sociedade de sua vontade política coletiva, isolar as SDF e retratá-las como um problema puramente militar. Embora os direitos culturais individuais sejam garantidos, eles são deliberadamente dissociados da Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria e das SDF, a fim de privá-los de sua legitimidade social. Termos como “unidade nacional”, “um só teto” e “sem privilégios” não servem ao pluralismo, mas sim à imposição de um modelo de Estado centralizado como a única ordem legítima.

A diversidade não é entendida como uma força política constituinte, mas como uma condição que deve ser controlada. A existência da Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria e das Forças Democráticas Sírias (SDF) é marcada como um desvio da norma. O objetivo não é compreender a questão kurda, mas esmagá-la e remodelá-la.

Divisão étnica e instrumentalização das tribos árabes

Outro fator importante nos acontecimentos atuais é a divisão étnica deliberada entre kurdos e árabes. Paralelamente às negociações diplomáticas entre Ancara e Damasco, preparativos militares e políticos concretos estavam, portanto, em andamento.

Um componente central destes preparativos foi o exercício deliberado de influência sobre as tribos árabes nas áreas DAANES. Tanto o governo al-Sharaa como a Turquia têm trabalhado há algum tempo para dissuadir estas tribos de cooperarem com a autogestão. Estes esforços têm se intensificado particularmente nos últimos meses.

De acordo com fontes sírias, mesmo antes do início dos combates, o governo de transição já havia conseguido conquistar algumas forças árabes em Aleppo que vinham cooperando com unidades kurdas. Essa mudança de lado serviu como um teste para estratégias semelhantes a leste do Eufrates. Essas atividades foram coordenadas pelo assessor de al-Sharaa para assuntos tribais, Jihad Isa al-Sheikh (Abu Ahmed Zekkur), que atuava tanto na Turquia quanto no nordeste da Síria.

No final de 2025, uma delegação viajou para a Turquia e realizou reuniões com líderes tribais em Kilis, Urfa e Mardin. Seguiram-se conversações em Ras Al-Ayn, Raqqa e Deir ez-Zor. O objetivo era restaurar a confiança das tribos árabes e convencê-las a cooperar com o HTS.

Oficialmente, esta iniciativa é apresentada como uma contribuição para a “unidade social da Síria”. Na verdade, visa aumentar a agitação nas áreas controladas pelas Forças Democráticas Sírias (SDF), afastar as tribos árabes da Administração Democrática Autônoma do Norte e Leste da Síria e instrumentalizá-las contra outros grupos sociais, como os drusos em Sweida. A curto prazo, esta estratégia pode fortalecer o HTS, mas a longo prazo exacerba as tensões étnicas e abre caminho para uma maior divisão na Síria.

Plano internacional para destruir um modelo democrático para a região

Sendo assim, o ataque contra Rojava não visa apenas destruir as conquistas da sociedade kurda. Em vez disso, o objetivo deste plano internacional, que é apoiado por atores regionais como israel e Turquia, bem como por forças internacionais – sobretudo os Estados Unidos e os países europeus –, é destruir o projeto e a ideia de uma Síria democrática e de um Oriente Médio democrático.

O ataque é dirigido contra os princípios da democracia local, a libertação das mulheres, a igualdade de direitos para as comunidades étnicas e religiosas e a ideia de uma “terceira via”. Pretende demonstrar que não são possíveis alternativas para além do Estado-nação, do nacionalismo e da política de poder. A Administração Democrática Autônoma do Norte e Leste da Síria está, portanto, sendo forçada a render-se totalmente para retornar à ordem que existia antes de 2011 ou à aniquilação física completa.

Hoje, especialmente em condições de guerra, é essencial deixar claro para o mundo quem está realmente defendendo a liberdade. Essa luta não pode ser travada por meio de Estados ou governos; ela deve estar enraizada na própria sociedade, nas ruas. A legitimidade genuína e o poder duradouro só surgem por meio da solidariedade em massa. Quando essa força coletiva existe, torna-se muito mais difícil para os Estados manter a violência e a repressão. Caso contrário, as decisões são tomadas de cima para baixo e as pessoas são reduzidas a espectadores passivos. Não há razão para confiar nos governos. Eles mudam de posição da noite para o dia quando seus interesses mudam. A história está repleta de exemplos assim, e continuamos a testemunhá-lo hoje. Por essa razão, a forma de engajamento de que precisamos não é a diplomacia oficial, mas a diplomacia popular. As pessoas devem ser capazes de se compreender diretamente, além das fronteiras. O que está acontecendo deve ser explicado abertamente e sem mediação às próprias sociedades. Isso não é apenas uma necessidade moral, mas também uma poderosa força geopolítica. A responsabilidade de comunicar a realidade do mundo não pode ser deixada apenas aos Estados. Todos os Estados estão dispostos a abandonar seus princípios quando seus interesses são ameaçados. É por isso que a única fonte sustentável de pressão reside na consciência partilhada e na solidariedade dos povos. Explicar as realidades do mundo às sociedades em todo o lado é a base de uma diplomacia popular duradoura e eficaz. Se isso não acontecer, os planos continuarão a ser feitos a partir de cima e, mais uma vez, as pessoas ficarão assistindo às margens.

A Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria e o Movimento de Libertação do Kurdistão fazem um chamado imediato à expansão da luta contra os ataques e contam com a resistência total. A referência para isso é a resistência em Kobane em 2014-2015. Não foram apenas os combatentes do YPG e do YPJ que derrotaram o ISIS, mas também o amplo apoio, o respaldo moral e a solidariedade das sociedades, das forças democráticas e socialistas em todo o mundo. Nesse sentido, é hora de mais uma vez oferecer esse apoio aos combatentes da resistência em Rojava-Kurdistão. Contra as forças unidas da modernidade capitalista, as forças da modernidade democrática devem se unir para criar uma segunda Kobane e provar que a resistência dos povos permanece inabalável e que a ideia do socialismo democrático continua viva como uma alternativa ao sistema existente de exploração e opressão.

1 https://www.telegraph.co.uk/politics/2025/11/21/jonathan-powell-syrian-terror-group-national-security/

2 https://x.com/USAMBTurkiye/status/2013635851570336016

3 https://yeniyasamgazetesi9.com/saranin-sabikali-asiret-danismani/